O governo está ruindo: é também tarefa da luta das mulheres derrotar Bolsonaro
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O governo está ruindo: é também tarefa da luta das mulheres derrotar Bolsonaro

A semana passada foi cheia de derrotas para Bolsonaro, com a prisão de Queiroz, de Sara Winter e a queda de Weintraub. É também tarefa das mulheres derrotar Bolsonaro.

Adriana Herz Domingues e Camila Barbosa 23 jun 2020, 16:09

Desde seu início o governo de Jair Bolsonaro tem sido marcado por instabilidades, essas tem se agudizado ao longo desse ano e em especial na última semana. Diante da crise do coronavírus, Bolsonaro tem sido incapaz de responder às demandas de uma pandemia, negando o isolamento social pela pressão de empresários, com apoio de alguns setores da classe média, e forçando uma polarização em torno a uma medicamento sem provas de eficácia. Em meio a uma crise sanitária de enormes magnitudes, Bolsonaro perdeu dois ministros da saúde, deixando à frente do ministério um militar que cada vez mais se desgasta. Dessa forma, o Brasil se coloca no pódio como o segundo país com maior número de mortes por covid-19. Outro grande desgaste ao governo foi a saída Moro, que assegurava o apoio dos lava-jatistas. Para garantir sua permanência na presidência Bolsonaro avança na venda de cargos para o “centrão” e para consolidar os 30% da população que ainda o apoiam cada vez mais avança em um discurso neo-fascista. Essa semana trouxe crescentes instabilidades, a medida que as mobilizações antirracistas e antifascistas derrotaram os setores mais radicalizados de seus apoiadores e o governo enfrentou novas baixas.

A semana começou com a prisão de Sara Winter. A ex-integrante do grupo FEMEN, que se auto intitulava feminista em protestos topless, apesar de ser comandado por um homem e defender pautas bastante diversas dos movimentos feministas. Mesmo assim, Sara foi expulsa do grupo e desde então tem se construído como referência anti-feminista, conservadora e mais recentemente como liderança do acampamento “300” em Brasília – grupo que fazia manifestações contra a democracia e que foi desmontado pela polícia militar após o Ministério Público do DF o classificar como uma “milícia armada”. Sara foi alvo de busca e a apreensão pelo inquérito das FakeNews e no último domingo foi expedido seu mandato de prisão por outro inquérito, que investiga a organização das manifestações pró-golpe.

A relação de Sara Winter com Bolsonaro escancara mais uma vez a importância do anti-feminismo e do das pautas conservadoras para o avanço ideológico da extrema direita. É sintomático que a liderança dos grupos neofascistas em Brasília seja também o principal nome que ataca os direitos das mulheres, tentando há anos polarizar com a capilaridade e às ações de massa que o feminismo conseguiu articular no último período no Brasil. Sara trabalhou inclusive no Ministério dos Direitos Humanos ao lado de Damares, que diante da crise de violência doméstica que se instaurou no Brasil – com aumentos de até 40% nas cidades onde o registro funciona melhor – não teve quase nenhuma ação concreta para defender a vida das mulheres (ver manifesto do #nósestamosjuntas).

Ainda no terreno das confusões no “condomínio do poder”, assistimos finalmente à prisão de Fabrício Queiroz, ex-assessor do filho do presidente e senador Flávio Bolsonaro (Republicanos/RJ). Queiroz, que estava na condição de foragido, é um dos responsáveis pela organização do possível esquema de “rachadinha” – prática em que funcionários devolvem parte de seus salários – no gabinete que o então deputado estadual Flávio Bolsonaro mantinha na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Íntimo da família, Queiroz foi encontrado na casa de Frederick Wassef, advogado de Flávio Bolsonaro. No total, as acusações contra o ex-assessor apontam para os crimes de lavagem de dinheiro, peculato, ocultação de patrimônio e organização criminosa. 

Aqui, a máxima popular “me diga com quem andas que te direis quem és” parece ter comprometido vertiginosamente Jair Bolsonaro. Quem achou que o seu círculo social envolvia apenas fanáticos religiosos, terraplanistas e inimigos do povo talvez se assuste – ou não – em comprovar que chega a contar com corruptos e milicianos. Foi também Fabrício Queiroz quem apresentou Adriano da Nóbrega à família do presidente, um dos milicianos e matadores de aluguel mais procurados do país que foi morto há alguns meses, episódio sob a suspeita de queima de arquivo. Adriano chefiava a milícia do Escritório do Crime, que aparece centralmente nas investigações do assassinato de Marielle Franco. Quem, afinal, mandou matar Marielle e por que possui tantas conexões com o clã Bolsonaro? Esperemos que essa pergunta que fazemos há mais de dois anos esteja próxima de ser respondida. 

Para agraciar a semana que dificultou ainda mais a vida do governo, as lutas em defesa da educação pública puderam comemorar a queda de seu principal inimigo: Abrahaam Weintraub. Depois de uma gestão desastrosa à frente do Ministério da Educação e do desgaste que o Tsunami da Educação lhe impôs desde 2019, Weintraub, mesmo estando entre os mais fervorosos apoiadores do governo, foi sacrificado na tentativa de “política da boa vizinhança” do presidente com o Supremo Tribunal Federal. O STF, prestes a julgar o inquérito das Fake News disparadas durante a campanha presidencial, foi atacado recentemente por grupos da extrema-direita – os mesmos comandados por Sara Winter – que simularam um bombardeio ao seu prédio e pediam a prisão de seus membros, protesto a que o ex-ministro se somou e proferiu os mais tacanhos e baixos ataques. Sua derrota, sem dúvidas, consagra a vitória dos movimentos de educação que mantiveram uma trincheira vigilante e combativa às suas investidas trágicas. 

Nos parece, assim, que o governo Bolsonaro caminha para uma ruína irreversível, não apenas porque a burguesia não está coesionada ao seu redor, mas sobretudo porque a força das nossas lutas tem se imposto – a exemplo do levante negro que tomou o mundo e também o Brasil. Nós, que sempre tivemos a consciência de que as vidas dos brasileiros só poderiam ser protegidas efetivamente se um genocida, irresponsável e anticiência estivesse longe do principal cargo de poder do país, reforçamos agora a necessidade de que o impeachment seja uma bandeira de todas e todos que se preocupam com o futuro comum. Tirar Bolsonaro continua sendo uma tarefa tão urgente quanto a construção de um programa de emergência para enfrentar a crise sanitária acentuada pelo capital e dela não fugimos! 

Referências: 

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/06/15/lider-de-movimento-feminista-diz-que-sara-winter-foi-expulsa-por-sumir-com-dinheiro-para-protesto-e-espalhar-mentiras.ghtml

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/04/29/capitao-adriano-milicia-ex-bope-escritorio-do-crime-rio-de-janeiro-rj.htm

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/06/operacao-que-prendeu-queiroz-abre-novas-lacunas-sobre-rachadinha-de-flavio-bolsonaro.shtml


#NósEstamosJuntas

A campanha #NósEstamosJuntas se propõe a fortalecer mulheres, criando redes de solidariedade, apoio e amparo para romper com os ciclos da violência que muitas de nós nos encontramos, em especial no período da quarentena.

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