Os conflitos no Afeganistão e a vida das mulheres

Os conflitos no Afeganistão e a vida das mulheres

O conflito geopolítico e o papel das feministas.

Renata Moara 18 ago 2021, 07:36

O conflito geopolítico no Afeganistão 

Nos últimos dias os olhos do mundo se voltaram para o Afeganistão que passa por mais um conflito geopolítico. A ocupação imperialista feita pelos Estados Unidos nos últimos 20 anos, fracassou e teve as tropas estadunidenses retiradas do território afegão, mas nem de longe essa é uma vitória das massas contra o imperialismo. 

A capital Cabul é tomada pelo Talibã, grupo que já governou o país e que impôs um regime autoritário, regressivo e de grandes ataques aos direitos das mulheres. As cenas que são assistidas são desesperadoras, centenas de pessoas tentando sair do país em aviões lotados, o medo nas ruas, que é sentido especialmente pelas mulheres afegãs. 

O Talibã e as ameaças aos direitos das mulheres 

O Talibã é um grupo islamista que interpreta o Alcorão a partir da Sharia, que nega qualquer direito às mulheres. De acordo com a Sharia, as mulheres não podem sair de casa sem estarem acompanhadas de um parente homem, não podem receber educação, não tem representação no parlamento, não podem mostrar nenhuma parte do corpo, e são sujeitas a apedrejamento e outros tipos de violência. 

Vale destacar que ainda não se tem exatidão da forma que o Talibã atuará na capital Cabul em relação aos direitos das mulheres, mas que essas já se sentem ameaçadas pelo histórico de atuação do grupo. Em outras províncias governadas pelo Talibã, as mulheres não podem frequentar escolas, e apesar de ainda não ter caído nenhuma lei sobre em Cabul, meninas e mulheres já abandonam as escolas e universidades, painéis com figuras de mulheres são retirados das ruas de Cabul, já não se tem tanta segurança em sair de casa sem a burca completa. O medo já assombra as afegãs. 

Em 2012, a ativista Malala Yousafzai foi baleada pelo Talibã após se tornar mundialmente conhecida como defensora dos direitos das meninas de irem à escola. Hoje, Malala vê com preocupação a ocupação em Cabul pelos talibãs, e, assim como tantas outras ativistas do mundo, teme o que pode vir a acontecer com as mulheres em Cabul. Humira Saqib, jornalista e defensora dos direitos das mulheres afirma que os talibãs começaram a ir de casa em casa em busca das mulheres ativistas (https://brasil.elpais.com/internacional/2021-08-17/os-talibas-comecaram-a-ir-de-casa-em-casa-a-procura-das-mulheres-ativistas-denuncia-humira-saqib.html?utm_source=Facebook&ssm=FB_BR_CM#Echobox=1629203053), está cada vez mais sendo pavimentado o caminho de perseguição às mulheres. 

Em matéria feita pela CNN com o tema de ameaça aos direitos conquistados pelas mulheres nos últimos 20 anos (https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2021/08/15/ascensao-do-taliba-ameaca-direitos-conquistados-por-mulheres-afegas-em-20-anos), destaca-se o exemplo da cidade de Kandahar, onde após a tomada pelo Talibã, as mulheres foram retiradas dos seus postos de trabalho nos bancos e que podiam ser substituídas por seus parentes do sexo masculino. São fortes indícios do que pode vir a acontecer em Cabul. 

Já no The Guardian (https://www.theguardian.com/world/2021/aug/15/an-afghan-woman-in-kabul-now-i-have-to-burn-everything-i-achieved?__twitter_impression=true), as mulheres relatam a saída dos dormitórios das universidades, o medo e a reação dos homens nas ruas, que faziam piadas, e dos taxis que se negavam a levá-las porque não queriam assumir a responsabilidade de transportar uma mulher. Esses são alguns trechos retirados da matéria:

“Como mulher, sinto que sou a vítima desta guerra política que os homens começaram. Sinto que já não consigo rir em voz alta, já não consigo ouvir as minhas canções favoritas, já não consigo encontrar os meus amigos no nosso café favorito, já não consigo usar o meu vestido amarelo favorito ou batom cor-de-rosa. E já não posso ir para o meu trabalho ou terminar o curso universitário que trabalhei durante anos para o conseguir.”

“Quando as províncias desmoronaram uma após outra, pensei nos meus lindos sonhos de menina. As minhas irmãs e eu não conseguimos dormir toda a noite, lembrando as histórias que a minha mãe nos contava sobre a era Talibã e a forma como tratavam as mulheres. Não esperava que fôssemos novamente privados de todos os nossos direitos básicos e que voltássemos a viajar até há 20 anos atrás. Que após 20 anos de luta pelos nossos direitos e liberdade, deveríamos estar à caça de burcas e a esconder a nossa identidade.”

Solidariedade ativa, feminista e internacional 

Ainda não temos certeza das leis que o Talibã implementará em Cabul, mas temos exemplos de outras províncias no Afeganistão de como as mulheres sofreram uma regressão nos seus direitos, portanto, é urgente que as feministas de todo o mundo se levantem em solidariedade ativa às mulheres afegãs. 

Em Cabul, grupos de mulheres já se organizam em protestos pela garantia dos seus direitos, com cartazes que dizem “nós temos direito de trabalhar e estar seguras”, além das reivindicações de acesso à educação, participação política e contra toda e qualquer retirada de direitos conquistados nos últimos anos. 

No Brasil, e no mundo, urge a necessidade de juntarmos nossas vozes em defesa das mulheres afegãs, e do povo afegão. Nem o imperialismo norte-americano, nem o governo autoritário Talibã, a construção da democracia e liberdade no Afeganistão se dará pelo povo.


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