MARLI CORAGEM
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MARLI CORAGEM

Uma história de luta por justiça na cidade de Belford Roxo

Juntas! BXD 25 abr 2022, 18:00

Marli Pereira Soares foi uma mulher preta nascida na Favela do Pinto, no Rio de Janeiro, em 25 de outubro em 1954. Foi mãe, empregada doméstica e funcionária pública. Em outubro de 1979, residindo em Belford Roxo, testemunhou a morte de seu irmão, Paulo Pereira Soares, pela polícia militar. Esse foi o início da luta de Marli por justiça diante da violência policial e do genocídio da população negra. 

Trajetória 

Em 1969, Marli, ainda em sua adolescência, vivenciava as consequências da política higienista dos governos federal e estadual desse período. Utilizando o discurso de que as favelas eram locais que apresentavam risco à saúde pública, os governos criaram políticas de remoção dos moradores desses locais sob a lógica de “limpeza” dos centros urbanos. As famílias da Favela Praia do Pinto, localizada no Leblon, bairro da Zona Sul carioca, estavam entre as afetadas pelo higienismo desses projetos. No dia 11 de maio, enquanto a desocupação do local ainda estava em andamento, um incêndio suspeito se alastrou pela favela, deixando inúmeras famílias desabrigadas. Marli e sua família tiveram sua casa e todos seus pertences queimados pelo incêndio que adiantou o processo de remoção dos moradores, visto que meses depois o terreno foi leiloado para a construção de um condomínio de classe média. E assim, a família Soares foi removida para Belford Roxo, uma cidade da Baixada Fluminense.

Dez anos após o incêndio, em 1979, Marli tinha 25 anos quando viu homens fardados invadirem sua casa, no município de Belford Roxo, e sequestrarem seu irmão, Paulo Pereira Soares, de 18 anos de idade. Mais tarde, encontrou o corpo de Paulo nas proximidades da casa, ele estava de bruços e com as mãos amarradas. No dia seguinte, a jovem foi junto com seu pai à delegacia da região para denunciar o assassinato do irmão, marcando o começo de uma longa luta por justiça. 

Marli, em um período de ditadura civil-militar, passou a percorrer a delegacia e o quartel da região quase todos os dias em uma busca incansável pelos assassinos, comparecendo mais de 30 vezes nesses locais para fazer identificações. O caso ganhou destaque nos jornais fazendo com que a jovem ficasse conhecida como “Marli Coragem” pela sua luta contra a violência policial em um período de repressão extrema. Segundo a filósofa, professora e revolucionária Lélia González (2020, p.200), “por aí dá para entender por que o primeiro passo que a mulher negra dá, em termos de conscientização, tem a ver com a luta contra o racismo, posto que não só ela, mas seus filhos, irmãos, parentes, companheiro, amigos e conhecidos dele são vítimas”. 

Durante as investigações, Marli foi alvo de diversas ameaças, tornando-se mãe solo após o marido abandonar a família com medo de ser morto. Na década de 60, sem emprego e tendo que viver escondida, ela sobrevivia com o apoio da mãe, do advogado e dos movimentos feministas. Anos depois, apenas uma parte dos acusados foram condenados e, ao ser questionada por um repórter se não estava satisfeita com o julgamento, Marli questionou: “quem me garante que ainda não vai chorar meu pai, minha mãe e mais sete crianças?” (GLOBONEWS, 2019). Infelizmente, uma década depois, ela sofreria com o assassinato de seu próprio filho. 

Em 1993, Marli, aos 39 anos, era funcionária pública do Estado e morava em Jacarepaguá com a família. Sandro, seu filho de 15 anos, estudava e trabalhava com a mãe até o dia em que foi assassinado na Zona Oeste com diversos tiros juntamente com mais dois amigos. Testemunhas afirmaram que viram os jovens sendo presos por uma patrulha da polícia militar horas antes de serem encontrados mortos. Meses depois, o sobrinho de 18 anos de Marli também foi assassinato. 

Essa história é mais uma entre as tantas narrativas de mulheres pretas que foram apagadas não só da nossa cidade, Belford Roxo, como também do nosso estado e país. E é o nosso dever e direito lutar para que seus nomes jamais sejam esquecidos. Marli Pereira Soares, presente! 

Referências

FONSECA, Bruna. Respeita nossa história: Marli Pereira Soares. 2020. Disponível em: https://www.mulheresdofimdomundo.com/post/respeita-nossa-hist%C3%B3ria-marli-pereira-soares. Acesso em: 20 Out.2021.

GLOBONEWS. Os 40 anos do caso Marli. 2019. Disponível em: https://globosatplay.globo.com/assistir/c/p/v/8155818/. Acesso em: 20 Out.2021.

GONZALEZ, Lélia. Por um Feminismo Afro-Latino-Americano: Ensaios, Intervenções e Diálogos. Rio Janeiro: Zahar, 2020. 375 pp.

MEMÓRIAS DA DITADURA. Marli Pereira Soares. Disponível em: https://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/marli-pereira-soares/. Acesso em: 20 Out. 2021. 


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