Manifesto do coletivo Juntas para a I Conferência Internacional Antifascista!
Leia o manifesto elaborado pela Coordenação Nacional do Juntas para a I Conferência Internacional Antifasista
Conjuntura internacional
A Conferência Internacional Antifascista acontece em um momento de ascenção da extrema-direita neo-imperialista em resposta a crise do capital que se acumula há anos. O ataque dos EUA ao Irã representa uma face ainda mais radical desse imperialismo que pretende impor a hegemonia estadunidense com o militarismo interno e externo. Por outro lado, há resistência tanto do povo americano no movimento ‘’No Kings’’(Sem Reis) e Fora ICE, quanto do povo iraniano que não vê na intervenção americana a solução para os problemas do seu país.
No início do ano, o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa foi uma importante construção de narrativa midiática quando mais documentos do caso Epstein escancaram a imoralidade do principal líder da extrema direita na atualidade, Donald Trump, que aparece em centenas de imagens ao lado de Epstein e de meninas menores de idade. Um segundo elemento importante que esse caso sublinha é o descaso com a voz de centenas de mulheres que denunciam o esquema de tráfico de meninas e abusos há anos, inclusive brasileiras. Afinal, que valor têm a voz das mulheres diante dos bilionários poderosos?
Por isso, o feminismo é a última barreira na defesa de crianças, meninas e mulheres de todo o mundo. Nossa luta é pela vida das mulheres, sejam brasileiras, palestinas ou curdas. É urgente, nessa Conferência Antifascista, refletir como podemos impor limites e derrotas aos bilionários que exploram mulheres, perseguem imigrantes e fazem guerras em todo o mundo. Apesar da crise econômica, das guerras e das calamidades ambientais, as lutas que fizemos até hoje acumulam um programa político anticapitalista, antirracista e ecossocialista. Esse programa faz a ‘’internacional fascista’’ tremer e temer nossa fúria feminista.
Brasil: violência de gênero e feminicídios
Encerramos o ano de 2025 com uma forte mobilização de mulheres, organizada de forma espontânea por ativistas, militantes, influenciadoras e artistas, para dar uma resposta à epidemia de feminicídios que ocorreu no país, ficando conhecida como Levante Mulheres Vivas, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde os atos foram maiores. Nesse processo, o Juntas ganhou relevância enquanto referência sendo também parte orgânica dessa construção.
A mobilização ocorreu após inúmeras denúncias, cada vez mais absurdas, de feminicídios no sul do país, alcançando seu estopim com casos de grande repercussão nacional. Entre eles, o assassinato de duas servidoras do Cefet/RJ por um subordinado que afirmava não aceitar a liderança de mulheres; em São Paulo, o caso de Tainara, atropelada e arrastada pelo namorado por cerca de um quilômetro na Marginal Tietê; e a denúncia da ex-namorada do influenciador conhecido como “Calvo do Campari”, que utiliza suas plataformas digitais para fomentar discursos de ódio contra feministas e defender a subordinação das mulheres como parâmetro social. Ele e outros nomes desse campo, associados à cultura misógina masculinista dos chamados Red Pill, têm se constituído como espaços de reafirmação da masculinidade entendida também como um projeto político, frequentemente conectado e fruto da extrema-direita.
Ao nos depararmos com o Atlas da Violência 2025, realizado pelo Ipea, observamos que o feminicídio e a violência de gênero seguem registrando números altíssimos no Brasil. A comparação entre mulheres brancas e negras revela uma diferença expressiva, indicando que as mulheres negras continuam sendo as principais vítimas: entre 2013 e 2023, elas representaram 67,1% do total de assassinatos e 58,5% dos casos de violência doméstica. Também alarmam as notificações que apontam maior incidência de violência intrafamiliar contra crianças de 0 a 9 anos. O estudo mostra ainda que as armas de fogo permanecem como o principal meio utilizado nos homicídios de mulheres — em 2023, cerca de 51,6% foram mortas dessa forma — evidenciando a relação direta entre a circulação de armamentos e a letalidade da violência de gênero. Por fim, a violência contra pessoas LGBTQIA+ também se mantém preocupante: 12,4% dos registros tiveram como motivação a orientação sexual, com crescimento de 43,2% em relação a 2022, revelando a persistência da discriminação e como a sexualidade, marcada pelas relações patriarcais de gênero, ainda constitui um fator de maior exposição à violência.
O que os casos mencionados revelam é que não se tratam de episódios isolados, nem são alarmantes apenas por sua crueldade ou repercussão midiática, mas porque integram um mesmo fenômeno social, cujas raízes estão fincadas na própria estrutura da sociedade capitalista, sobretudo pela necessidade de sua reprodução social. É nesse contexto que a extrema-direita opera como suporte ideológico e estrutural, contribuindo para o aprofundamento dessas violências ao mesmo tempo em que se consolida como um projeto de poder.
Por meio de porta-vozes nas redes sociais, nos parlamentos e em articulações internacionais, a extrema-direita e a influência neofascista intensificam suas ações. Entre os exemplos mais graves estão a escalada de Donald Trump contra os imigrantes, sua interferência na América Latina e o genocídio promovido por Benjamin Netanyahu em Gaza. Apesar de algumas conquistas no Brasil, como a prisão de Bolsonaro e de Carla Zambelli, agentes desse mesmo campo continuam atuando a partir de novas lideranças e gerações políticas, como Nikolas Ferreira, Carlos Bolsonaro e a própria família Bolsonaro, além de figuras como Tarcísio de Freitas no governo de São Paulo.
Por outro lado, diante das mobilizações, Lula apresentou o Pacto Nacional Contra o Feminicídio, que busca formalizar um acordo entre os três poderes — Executivo, Legislativo e Judiciário — para avançar em medidas penais nos casos de violência e misoginia, inclusive nas redes. Trata-se, sem dúvida, de um passo importante. Contudo, o contraste é evidente ao observarmos quem ocupa essa mesa de debate: além da ausência dos movimentos de mulheres e dos movimentos sociais, a proposta ainda se mostra vaga e tende a priorizar a criminalização sem aprofundar aspectos centrais, como a ampliação das políticas de prevenção, o fortalecimento dos órgãos responsáveis e a previsão orçamentária. Nesse sentido, parece mais um anúncio ainda com poucas condições de responder, de forma imediata e efetiva, às necessidades concretas para a vida das mulheres.
É dentro desse pêndulo — entre as insuficiências do neoliberalismo progressista, que apresenta medidas limitadas para enfrentar a violência e garantir o cuidado com a vida enquanto sustenta uma agenda econômica altamente lucrativa para poucos, e a extrema-direita/neofascismo, que disputa a partir da face mais canibal do capitalismo e da dizimação dos povos — que o feminismo internacionalista e revolucionário precisa se organizar e traçar um plano global para a classe trabalhadora.
Conferência antifascista: mulheres na linha de frente contra o fascismo e a barbárie imperialista
É nesse cenário de profunda crise do capitalismo — econômica, política, social e ambiental — articulado ao fortalecimento da extrema-direita e à reatualização de tendências neofascistas, que se observa uma nova intensificação das lutas feministas. A recente onda de mobilizações tem impulsionado mulheres em diversas partes do mundo ao enfrentamento do assédio, do feminicídio e da violência de gênero. Nesse contexto, as mulheres têm ocupado as ruas e se afirmado como sujeitos centrais das resistências contemporâneas, como no movimento Mulheres Vivas e na Marcha Nacional de Mulheres Negras posicionando-se na linha de frente contra o avanço do fascismo e das formas renovadas de dominação imperialista.
A Conferência Antifascista, portanto, cumpre um papel estratégico na articulação dessas resistências, ao reunir as lutas feministas, antirracistas, pela soberania dos povos, pela defesa da terra e de seus recursos, por trabalho digno e por mais tempo livre para a classe trabalhadora, além do enfrentamento aos ajustes econômicos que precarizam os serviços públicos para garantir os lucros do grande capital. Compreendemos a violência de gênero como um eixo central desse debate, mas não de forma isolada: sua superação e a construção de condições reais para a emancipação das mulheres exigem transformações estruturais na sociedade. É a partir dessa perspectiva que reafirmamos a necessidade de um programa de luta capaz de enfrentar as bases materiais da barbárie imperialista e de abrir caminhos para um novo projeto de sociedade. Contudo, reivindicamos como eixos principais os seguintes pontos:
- Solidariedade internacionalista na luta por reconhecimento da autodeterminação dos povos para a resolução dos seus próprios conflitos.
- Defesa do aborto legal, seguro e gratuito.
- Liberdade para as mulheres curdas e o fim do genocídio do povo palestino.
- Acesso de todas as mulheres e pessoas que gestam a todas as tecnologias que garantam os direitos reprodutivos.
- Defesa do uso de tornozeleiras eletrônicas por parte dos agressores de mulheres.
- Defesa do investimento em políticas públicas de prevenção e mitigação dos efeitos das violências contra as mulheres, povos racializados, LGBTQIAPN+ e crianças.
- Políticas públicas e gratuitas de educação, saúde e cultura que visem dar conta das demandas da reprodução social do cuidado.
- Igualdade salarial entre pessoas, independente do seu gênero, raça, crença ou orientação sexual.