OPINIÃO | Fascismo, capitalismo em crise e misoginia: a violência contra as mulheres como política de dominação
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

OPINIÃO | Fascismo, capitalismo em crise e misoginia: a violência contra as mulheres como política de dominação

O enfrentamento da violência contra mulheres frequentemente aparece associado à ampliação das políticas de criminalização. No entanto, diversas pensadoras feministas negras alertam para os limites de respostas baseadas exclusivamente no sistema penal.

Carla Zanella 17 mar 2026, 11:08

Este texto expressa a opinião da autora e busca contribuir para o debate no interior do nosso coletivo e no movimento feminista.

O crescimento da extrema direita em diferentes regiões do mundo tem sido acompanhado por um aumento expressivo da violência contra mulheres. Esse fenômeno não pode ser interpretado apenas como um desvio moral ou como resultado de conflitos individuais. Ao contrário, ele precisa ser analisado a partir das dinâmicas estruturais do capitalismo e de suas formas de reorganização política em momentos de crise.

Em momentos de instabilidade econômica, política e social, o sistema recorre a formas autoritárias de poder capazes de reorganizar a sociedade através da intensificação das hierarquias sociais existentes. Nesse processo, raça, gênero e classe são mobilizados como instrumentos de controle social.

Nesse sentido, como observa Roberto Robaina ao dialogar com Theodor Adorno, o fascismo não ressurge do nada. Ele reaparece porque os pressupostos sociais que o tornaram possível permanecem presentes. Entre esses pressupostos estão a concentração crescente do capital, a pauperização relativa das massas e o aumento da insegurança social produzida por transformações econômicas profundas, como o desemprego tecnológico. Essas dinâmicas alimentam sentimentos difusos de medo, frustração e perda de status entre setores que antes se percebiam como socialmente estáveis.

Em contextos assim, é comum a busca por respostas simples para angústias complexas.  O medo e a sensação de perda de controle frequentemente são canalizados para demandas por ordem, punição e autoridade. Nesse ambiente, a extrema direita oferece uma narrativa que identifica inimigos internos responsáveis pela crise social.

Assim, o crescimento da violência contra mulheres não ocorre de maneira acidental, desassociada de uma sociedade violenta. A misoginia torna-se parte central da gramática política da extrema direita, funcionando como mecanismo de disciplinamento social e de reafirmação da ordem patriarcal. O aumento dos feminicídios e das violências de gênero, nesse contexto, expressa não apenas conflitos privados, mas a radicalização de uma lógica política que transforma o corpo feminino em território de dominação.

Capitalismo, propriedade privada e a construção da mulher como posse

A relação entre patriarcado e propriedade privada foi analisada de forma pioneira por Friedrich Engels em A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Engels argumenta que a consolidação da família monogâmica patriarcal está diretamente ligada ao surgimento da propriedade privada e à necessidade de controlar a filiação e a herança. Nesse processo histórico, o corpo das mulheres passa a ser submetido a formas sistemáticas de controle social.

A dominação masculina não desaparece com o desenvolvimento do capitalismo. Pelo contrário, ela é reorganizada. O sistema capitalista depende do trabalho reprodutivo realizado majoritariamente por mulheres — trabalho doméstico, cuidado e reprodução da força de trabalho — ao mesmo tempo em que mantém estruturas simbólicas e materiais que reforçam sua subordinação.

A filósofa Silvia Federici aprofunda essa análise ao demonstrar que a transição para o capitalismo foi marcada por processos violentos de disciplinamento do corpo feminino. Em Calibã e a Bruxa, Federici sustenta que a chamada acumulação primitiva incluiu uma reorganização profunda das relações de gênero. A perseguição às mulheres durante a caça às bruxas desempenhou um papel central na construção de uma nova ordem patriarcal que subordinava o corpo feminino às necessidades de reprodução da força de trabalho.

Ao analisar essa obra, Luciana Genro destaca que a dominação das mulheres e o controle social sobre seus corpos estão profundamente vinculados à lógica de organização do capitalismo. Segundo sua leitura, o sistema precisa disciplinar a classe trabalhadora tanto para o trabalho quanto para a reprodução da força de trabalho, o que implica a construção de mecanismos sociais e políticos que regulam a sexualidade, a reprodução e o trabalho das mulheres.

Essa perspectiva ganha novas dimensões quando analisada a partir do pensamento de Lélia Gonzalez, que evidencia como a opressão de gênero no contexto latino-americano está profundamente entrelaçada com o racismo. Gonzalez é pioneira em explicar que a construção social das mulheres negras nas sociedades latino-americanas se deu a partir de uma lógica de exploração simultaneamente racial, sexual e econômica. Para ela, a divisão racial do trabalho relegou a mulher negra a papéis de ‘mucama’ e ‘mãe preta’, onde o corpo feminino é visto como um recurso natural disponível para o capital e para o prazer do colonizador. Essa ‘disponibilidade’ forçada é a base da violência neofascista atual: a tentativa de retomar o controle absoluto sobre os corpos das mulheres.

Dessa forma, a ideia de posse sobre o corpo feminino não é um resquício arcaico de sociedades passadas, mas uma dimensão estrutural do capitalismo. Em períodos de crise, essa lógica tende a ser intensificada, produzindo novas formas de controle e violência.

Fascismo e a produção de categorias de sub-humanidade

Aqui compreendemos que o fascismo não é uma anomalia, estranha ao capitalismo, mas a forma mais radical de reorganização política do capitalismo em crise. Para Marx, as crises do capital produzem profundas rupturas sociais e políticas que exigem novas formas de controle das classes dominantes sobre a sociedade.

Historicamente, regimes fascistas operam através da construção de categorias de pessoas consideradas menos humanas. No nazismo, esse processo ocorreu através da desumanização de judeus, pessoas racializadas, pessoas com deficiência e opositores políticos. A produção dessas categorias legitima a violência como instrumento de reorganização social.

A misoginia contemporânea, guardadas as devidas proporções, permite uma analogia de reprodução de mecanismos semelhantes. Discursos difundidos em comunidades digitais associadas às culturas “incel” e “red pill” classificam mulheres em categorias hierárquicas de valor social — “mulher para casar”, “mulher descartável”, “mulher degenerada”. Essa classificação estabelece uma lógica de desumanização que legitima a violência como forma de punição para aquelas que não correspondem ao ideal patriarcal.

Um elemento central dessa radicalização é o crescimento de comunidades digitais que difundem discursos misóginos e antifeministas. Esses espaços, frequentemente agrupados sob o termo “manosfera” ou “machosfera”, incluem movimentos como incels, MGTOW e comunidades associadas à ideologia chamada “red pill”. Nesses ambientes, mulheres são classificadas segundo escalas de “valor sexual” ou “valor de mercado”, criando sistemas hierárquicos que naturalizam sua objetificação e desumanização. Esses fóruns funcionam como espaços de socialização política para jovens homens que experimentam frustrações afetivas ou exclusão social.

Roberto Robaina, em seu livro A Ascensão da Extrema Direita e o Freio de Emergência, aponta que uma das características centrais da direita é a naturalização das desigualdades sociais, lógica que dialoga diretamente com a dinâmica promovida por esses grupos. A hierarquia social é apresentada como algo natural, decorrente de supostas diferenças entre indivíduos, e não como resultado de relações históricas de poder. Nesse quadro ideológico, a família patriarcal, a religião, a pátria e a propriedade privada aparecem como pilares de uma ordem social que deve ser preservada.

A misoginia encontra nesse terreno uma base ideológica particularmente fértil. Ao reafirmar a hierarquia entre homens e mulheres e defender modelos familiares autoritários, a extrema direita transforma a desigualdade de gênero em valor social e político. Nesse sentido, o feminicídio não pode ser interpretado apenas como um crime individual. Ele expressa um processo político de reafirmação da dominação masculina e de disciplinamento social. A violência contra mulheres torna-se, assim, um mecanismo de produção de ordem social dentro de um contexto de radicalização autoritária.

Guerra, colonialismo , racismo e violência contra mulheres

A relação entre violência contra mulheres e dominação política torna-se ainda mais evidente em contextos de guerra e colonialismo. O corpo feminino frequentemente se transforma em território simbólico de disputa, sendo utilizado como instrumento de humilhação, punição coletiva e controle social de comunidades inteiras.

Na Palestina, por exemplo, mulheres vivem sob múltiplas formas de violência associadas à ocupação militar promovida por Israel. A militarização da vida cotidiana intensifica desigualdades e expõe mulheres a formas específicas de violência de gênero.

Além disso, discursos políticos  frequentemente instrumentalizam a situação das mulheres para justificar agendas geopolíticas. Durante seu governo, Donald Trump utilizou retoricamente a defesa das mulheres iranianas ao mesmo tempo em que promovia políticas profundamente misóginas nos Estados Unidos, incluindo restrições ao acesso ao aborto e alianças com movimentos conservadores que buscam limitar direitos das mulheres.

Essas dinâmicas revelam que a violência contra mulheres, seja em contextos domésticos, coloniais ou militares, não constitui um fenômeno isolado. Pelo contrário, ela integra um conjunto mais amplo de mecanismos de poder que, em momentos de crise, são mobilizados para reorganizar hierarquias sociais e reafirmar formas autoritárias de dominação.

Criminalização da misoginia, racismo e crítica ao sistema penal

O enfrentamento da violência contra mulheres frequentemente aparece associado à ampliação das políticas de criminalização. No entanto, diversas pensadoras feministas negras alertam para os limites de respostas baseadas exclusivamente no sistema penal.

A filósofa e ativista Angela Davis argumenta que o encarceramento em massa não resolve as causas estruturais da violência. Pelo contrário, o complexo industrial-prisional reproduz desigualdades raciais e de classe, ao mesmo tempo em que falha em transformar as condições sociais que produzem a violência. Em sua obra, Davis demonstra que a prisão é o destino de corpos que o capitalismo não consegue mais explorar lucrativamente.

Essa crítica se reforça quando observada à luz da análise da extrema direita feita por Roberto Robaina. Dialogando com Mudde, Robaina destaca que o autoritarismo é um traço central desses movimentos. A extrema direita sustenta que toda transgressão à autoridade deve ser severamente punida, defende o endurecimento penal e oferece apoio irrestrito às forças de segurança, mesmo diante de abusos.

Nesse quadro ideológico, a transformação da misoginia em uma pauta exclusivamente penal serve como um cavalo de Troia para o controle da classe trabalhadora por três motivos principais:

1. Legitimação do Estado Policial: Ao focar na resposta criminal, a extrema direita expande o poder de vigilância e repressão do Estado. O argumento da ‘proteção das mulheres’ é usado para justificar o aumento do aparato policial em bairros periféricos, onde, paradoxalmente, as mulheres são as principais vítimas da violência estatal (através do assassinato de seus filhos e companheiros, através da revitimização quando buscam nas forças policiais socorro para situações de violência doméstica, entre outros).
2. Despolitização da Crise: Punir o indivíduo ‘misógino’ com prisão permite ao sistema ignorar que a violência é alimentada pela precarização da vida. O crime torna-se uma patologia individual, e não um sintoma do capitalismo em crise.

3. Ineficácia estrutural da punição: A centralidade do sistema penal produz ainda um terceiro efeito: mesmo quando a punição ocorre, ela raramente transforma as condições que alimentam a violência no longo prazo. O sistema penal atua sobretudo após o crime consumado e possui capacidade limitada de prevenção estrutural. Sem enfrentar as raízes sociais, econômicas e culturais da misoginia — incluindo desigualdades de gênero, racismo estrutural e precarização da vida — a resposta punitiva tende a operar apenas como um mecanismo de gestão da violência, e não como instrumento efetivo de sua superação.

Como observa Lélia Gonzalez, o braço penal do Estado atua seletivamente: enquanto agressores de classes altas permanecem impunes, o sistema penal é usado para estigmatizar e neutralizar homens das classes subalternas, gerando um ciclo de desestruturação familiar que sobrecarrega ainda mais as mulheres negras e pobres.

As críticas do feminismo negro alertam para os riscos dessa abordagem. Quando o combate à violência de gênero se limita à expansão do sistema penal, ele pode acabar reforçando estruturas de controle racial e social sem enfrentar as raízes estruturais da violência.

Existem saídas?

O avanço contemporâneo da extrema direita e o crescimento da violência contra mulheres fazem parte de um mesmo processo histórico. Em contextos de crise, o capitalismo tende a recorrer a formas autoritárias de reorganização social que reforçam hierarquias de gênero, raça e classe.

Como argumenta Roberto Robaina em suas teses sobre o neofascismo, a extrema direita contemporânea não deve ser compreendida como um fenômeno meramente eleitoral ou conjuntural. Ela expressa uma reação política profunda às crises do capitalismo e se alimenta do medo, da insegurança social e do ressentimento produzido por essas transformações.

Nesse contexto, a misoginia funciona como um dos instrumentos centrais de reorganização da ordem social. Ao reforçar a ideia de posse sobre o corpo feminino e ao produzir categorias de sub-humanidade, o neofascismo cria condições ideológicas e materiais para a intensificação da violência contra mulheres.

Como demonstram as contribuições de Lélia Gonzalez, Angela Davis e Luciana Genro articulou bem em sua análise  sobre Calibã e a Bruxa, compreender essa dinâmica exige uma abordagem que articule feminismo, antirracismo e crítica ao capitalismo. Somente a partir dessa perspectiva será possível enfrentar simultaneamente as estruturas de dominação que sustentam o avanço da extrema direita e a intensificação da violência contra mulheres, recusando as armadilhas de um punitivismo que apenas fortalece o Estado que nos oprime.

Referências Bibliográficas

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.

DAVIS, Angela. Estarão as prisões obsoletas? Rio de Janeiro: Difel, 2018.

ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Boitempo, 2014.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.

GENRO, Luciana. Marxismo e Feminismo. Disponível em: <https://lucianagenro.com.br>. Acesso em: 9 mar. 2026.

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Organização de Flavia Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.

ROBAINA, Roberto. A ascensão da extrema direita e o freio de emergência. Porto Alegre: Movimento, 2025. 147 p.


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