OPINIÃO | O Futuro é Feminista, a Luta é pela Vida de todas as crianças!
Precisamos romper com a cultura da violência que ensina meninos a serem agressores e meninas a serem submissas
Este texto expressa a opinião das autoras e busca contribuir para o debate no interior do nosso coletivo e no movimento feminista.
Em tempos de escalada das violências sobre a cultura que atravessa os corpos das mulheres e crianças, é importante atentarmos que o masculinismo é uma cultura que naturaliza abusos, uma cultura que enxerga o corpo e a mente das crianças como um objeto de controle e tem operado mundialmente dessa forma.
Nesse sentido, é importante apontarmos que o masculinismo não é apenas um comportamento, ele é uma estrutura presente na sociabilidade patriarcal/capitalista que autoriza e fomenta abusos. Destacamos que discursos violentos na internet e o silêncio ensurdecedor sobre a regulação das redes apresentam para nós um importante campo de disputa. Precisamos desnaturalizar a subalternização e a desumanização da vida das crianças, mulheres e da comunidade LGBTQIAPN+. A misoginia não algo natural, É CRIMINOSO! Não podemos normalizar pessoas que incitam a violência física, psicológica, sexual e econômica de quem quer que seja.
A misoginia atinge a todos, ela destrói infâncias e causa traumas que não podem ser relativizados, ela é a hierarquização de camadas já abastadas sobre o corpo das mulheres, em especial das mulheres negras e periféricas, é sobre idade, tatuagem, peso, inteligência, procedimentos. É o impulso do próprio capital em fazer com que as mulheres retornem para a condição de total dependência econômica e sujeição política.
A Comissão de Direitos Humanos (CDH) aprovou no dia 11 de março a emenda que criminaliza a misoginia. O PL 896/2023, altera a Lei do Racismo para incluir a misoginia entre os crimes de preconceito ou discriminação, agora precisa passar pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
Destacamos que nós feministas não queremos uma inversão de domínio, mas propomos uma existência matrifocal, onde a centralidade da vida, do cuidado e da renda seja coletivizada de forma justa. Propomos uma organização social onde a economia sirva à reprodução da vida, onde o cuidado coletivo reverbere no desenvolvimento pleno das crianças, e um desenvolvimento sem as adoecedoras e mortais intercorrências patriarcais, especialmente as difundidas nas redes sociais.
O feminismo não se trata de uma inversão do domínio, mas uma luta que tem como horizonte uma vida pensada num cuidado coletivo, uma vida para as futuras gerações com acesso a bons serviços públicos. Nossa luta não é uma utopia distante, mas um grito de urgência contra o feminicídio e o estupro de vulnerável, que vitimam desproporcionalmente meninas negras e periféricas.
Exigimos o fim da exploração do trabalho infantil, que no Brasil ainda possui cor e classe, retirando das crianças das camadas mais pauperizadas o direito ao brincar e a aprender. Para os filhos dos mais ricos, arte e filosofia, aos mais pobres, trabalho para “aprender a dar valor ao dinheiro desde cedo”. Queremos o fim de crianças como alimento dos trabalhos mais precários. É essencial que o Estado e a sociedade sejam os garantidores de que nenhum corpo infantil seja moeda de troca ou alvo da violência patriarcal.
Em tempos de desinformação defender a educação sexual nas escolas é defender a vida. Trata-se de instrumentalizar a criança para reconhecer limites, nomear abusos e exercer sua autonomia corporal. Sob a perspectiva histórico-cultural, entendemos que o conhecimento sobre si é a base para a proteção. Uma criança informada é uma criança protegida contra a cultura do silêncio que protege somente abusadores.
A justiça reprovativa exige redes de apoio sólidas e informadas. O acesso ao aborto legal é um direito humano e de saúde pública. Quando negamos esse direito, condenamos mulheres e crianças — muitas vezes meninas vítimas de estupro — a ciclos de miséria e traumas perpetuados. Nossa rede atua para que a maternidade seja um desejo, e não uma imposição que invisibiliza o capital investido pelas mulheres na sustentação da vida.
Precisamos romper com a cultura da violência que ensina meninos a serem agressores e meninas a serem submissas. Desse modo, substituir a “virilidade violenta” pela responsabilidade afetiva significa permitir que meninos sintam e cuidem, e que meninas liderem e se expandam. No caso da infância negra, isso passa por combater a adultização: o estigma que retira a inocência da criança negra, tratando-a com rigor punitivo enquanto crianças brancas são acolhidas. Humanizar a infância negra é um ato revolucionário.
Para que o futuro seja feminista, a economia deve servir à reprodução da vida e não apenas à acumulação. A miséria é o adubo da violência. Defendemos políticas públicas que garantam renda, segurança alimentar e moradia, permitindo que as famílias — em sua maioria chefiadas por mulheres negras — possam exercer o cuidado coletivo sem o assombro da fome. A existência matrifocal que propomos é o reconhecimento de que, onde a vida é central, a violência não encontra espaço para florescer.
O Futuro é Feminista, a Luta é pela Vida de todas as crianças!