Tomar o futuro em nossas mãos: mulheres nas ruas contra o neofascismo
Até o segundo turno, nossa tarefa é ampliar a mobilização nas ruas e convencer cada voto contra o retrocesso
O resultado do primeiro turno das eleições demonstrou a força que a extrema direita e suas ideias seguem tendo na sociedade brasileira. Sabemos que a derrota de Bolsonaro para Lula em 2022 foi uma enorme vitória democrática, mas ela não colocou um ponto final na força e na construção do movimento bolsonarista de caráter neofascista no Brasil. Flávio Bolsonaro terminou o pleito na primeira rodada à frente de Lula, contrariando a maior parte das pesquisas eleitorais. Seus candidatos ao parlamento e aos governos estaduais tiveram um sucesso estrondoso. É verdade que, de outro lado, o PSOL, como porta-voz e representante da esquerda anticapitalista e radical, também demonstrou sua força com votações históricas, destacadamente as de deputadas feministas, como foi o caso de Sâmia Bomfim e Erika Hilton.
Mas desde o dia 3 de outubro há algo de novo se movendo. Os primeiros dias de campanha do segundo turno demonstraram que ainda há muito jogo a ser jogado e que a disputa está em aberto. Nos dias que se sucederam, as ruas do país foram tomadas por jovens, mulheres e pelo povo trabalhador, que entendeu o recado das urnas: não podemos esmorecer. Temos que lutar até o último dia por cada um dos votos para eleger Lula presidente e erguer novamente uma barreira de contenção ao projeto político neofascista no Brasil.
O bolsonarismo sofreu um revés importante nas eleições de 2022. Mas isso não colocou por terra seu projeto conservador, baseado na exploração dos trabalhadores e em um modelo neoliberal voraz, que busca desmontar completamente os direitos trabalhistas. Ao mesmo tempo, procura ganhar terreno nas classes populares por meio de um discurso marcado pelo populismo penal, pela misoginia, pela LGBTfobia, pelo racismo e pela transfobia. A extrema direita brasileira seguiu se fortalecendo e desenvolvendo seu potencial de organização por baixo.
É claro que, a esse movimento, somam-se setores importantes da burguesia nacional, que ainda se sustentam em um modelo colonial e escravocrata de poder, setores do fundamentalismo religioso e parte da velha política conservadora, que se realocaram sob as asas de Bolsonaro e seus asseclas. O bolsonarismo, porém, também se aproveita da insatisfação generalizada da população com as condições de vida, cada vez mais precárias e com menos garantias, para ampliar sua popularidade e conquistar apoio entre os setores mais pauperizados e desiludidos com a política tradicional.
Há muitos anos, esse campo político busca transformar a pauta dos direitos das mulheres e de sua autonomia em um instrumento de agitação de suas bandeiras conservadoras. Tenta mobilizar suas bases contra o movimento feminista e promover retrocessos em direitos ainda bastante básicos, conquistados pelas mulheres brasileiras há mais de 60 anos, como o direito ao aborto legal nos casos previstos na legislação brasileira. Mais recentemente, parte dessa ofensiva neofascista contra os direitos das mulheres se expressa na onda de influenciadores red pill nas redes sociais, que tentam conquistar apoio para um modelo de submissão das mulheres aos homens, representado também pelas chamadas trad wives. Não é de se estranhar que é neste ambiente que volta a circular a jurássica ideia de restringir o direito das mulheres ao voto.
Mas há um elemento que muitas vezes os bolsonaristas não levam em conta: a força das mulheres, que há mais de uma década tomam as ruas no Brasil sempre que nossos direitos são ameaçados. Em junho de 2024, por exemplo, tentaram aprovar no Congresso Nacional o chamado PL do Estuprador, projeto que buscava restringir ainda mais o direito ao aborto legal no país. Naquele momento, os bolsonaristas sentiram a força do movimento feminista, que tomou as ruas e, com muita mobilização, barrou essa proposta misógina. Já haviam experimentado essa força em 2018, na primeira eleição de Bolsonaro, quando as mulheres estiveram à frente do principal movimento contra sua eleição: o “Ele Não”.
Também foram as mulheres as principais opositoras ao abominável governo Jair Bolsonaro, responsável por uma condução criminosa da pandemia de COVID-19, que deixou mais de 700 mil mortos no Brasil. Nós sempre estivemos na linha de frente do enfrentamento à extrema direita no Brasil e em outros países. Agora, somos novamente convocadas a tomar as ruas e dizer que não aceitaremos mais uma edição da barbárie neofascista que o governo de Bolsonaro Filho pretende promover.
A grande novidade desde o primeiro turno é que o povo tomou em suas mãos a tarefa não apenas de votar para derrotar Flávio Bolsonaro, mas principalmente de se mobilizar e tomar as ruas para deixar claro que não vamos tolerar uma reedição ainda pior do que foram os quatro anos do governo Bolsonaro.Sob o protagonismo da juventude, atos gigantescos têm tomado as ruas de cidades grandes e pequenas do Brasil. São milhões de pessoas mobilizadas para dizer: Bolsonaro nunca mais!
Agora mais uma vez as feministas têm esta tarefa: enfrentar a extrema direita nas ruas e nas urnas. Devemos nos envolver, estimular, participar e organizar cada uma das mobilizações que vêm sendo construídas pelo país, demonstrando que não vamos aceitar nada que signifique qualquer tipo de retrocesso nas nossas vidas.
As ruas estão tomadas em defesa da educação pública, da saúde e do SUS; contra o feminicídio e a violência contra as mulheres; em defesa dos programas de redistribuição de renda e contra a fome; e contra o ódio e a intolerância dirigidos às mulheres, à população LGBT e ao povo negro do Brasil. Nosso recado é esse: não seremos derrotados e seguiremos de cabeça erguida.
Temos pela frente a tarefa de estar presentes em cada porta de universidade, local de trabalho, terminal de transporte público, bairro e casa de trabalhadores e trabalhadoras, convencendo cada pessoa da importância de votar em Lula 13 no dia 25 de outubro, contra o retrocesso e o neofascismo no Brasil.
Até o dia do segundo turno, muitas outras mobilizações acontecerão, e seremos parte ativa de cada uma delas, contribuindo para sua construção, seu fortalecimento e sua convocação. No próximo sábado, 17 de outubro, teremos uma data fundamental de mobilização das mulheres em todo o país. O Coletivo Juntas estará presente e mobilizado para que, mais uma vez, possamos tomar nosso futuro em nossas próprias mãos.
Vamos até o final, porque a última palavra será das mulheres e do povo trabalhador.