OPINIÃO | A influência da monogamia na violência contra a mulher
"O Feminicídio é uma epidemia no Brasil"

OPINIÃO | A influência da monogamia na violência contra a mulher

Ao não olharmos para a estrutura monogâmica como um dos pilares da violência contra a mulher, acabamos ignorando uma parte importante das contradições e opressões que regem a experiência de ser mulher nesse mundo

Alana Landal 13 mar 2026, 18:28

Este texto expressa a opinião da autora e busca contribuir para o debate no interior do nosso coletivo e no movimento feminista.

A violência contra a mulher já é considerada uma epidemia global. No Brasil, desde a tipificação da lei do feminicídio, em março/2015, mais de 13.700 mulheres já foram assassinadas pela condição de ser mulher: só em 2025 foram ao menos 4 mulheres por dia, e sabemos que os números podem ser ainda maiores do que os divulgados. É fato que hoje em dia temos leis mais específicas para responsabilizar os agressores, mas nada disso têm conseguido proteger as nossas. Cerca de 13,1% das vítimas de feminicídio possuíam Medida Protetiva de Urgência vigente no momento do crime, indicando falhas na fiscalização e na proteção efetiva. Isso mostra que, na prática, o impacto dessas ferramentas na prevenção do feminicídio é quase mínimo. A ausência de políticas públicas robustas focadas na prevenção e conscientização, somada à falha do Estado em proteger àquelas que já se encontram em situação de risco, faz com que mulheres continuem sendo violentadas e assassinadas diariamente por homens. 

Os dados sobre feminicídio são contundentes em mostrar que a grande maioria dos feminicídios é praticado por companheiros ou ex-companheiros, e por existir essa relação direta entre feminicídio e relação afetivo-sexual é que devemos analisar a forma como construímos e experimentamos essas relações. Vivemos num sistema que considera o casamento monogâmico um dos pontos centrais da vida em sociedade, e esse ordenamento, que é jurídico, religioso e ideológico, historicamente blinda os homens e torna as mulheres vulneráveis nas relações afetivas. Silvia Federici considera que o contrato de casamento na sociedade capitalista é, antes de tudo, um contrato de trabalho. E como em toda relação de trabalho no capitalismo, a violência foi essencial enquanto instrumento de implantação e manutenção do sistema. Ainda hoje, as mulheres são vistas a partir dessa lógica e submetidas a um destino de trabalho doméstico e submissão aos seus senhores. “Isso que chamam de amor é trabalho não pago”, já dizia Federici. Por mais que hoje em dia haja um esforço para fazer o casamento parecer um vínculo que se constrói a partir do afeto e do amor romântico, estruturalmente falando esse vínculo foi, e sempre será, desigual. 

A monogamia é um sistema social de organização das relações afetivas e sexuais que, historicamente, funcionou como um pilar para estruturar a sociedade, atendendo diretamente aos interesses do patriarcado e do capitalismo. Na transição para as sociedades de classes e exploração, surge a família monogâmica e as atividades que antes eram coletivas são deslocadas para um núcleo individual. Engels, em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, escreve como a forma de organização familiar se modificou com a emergência da propriedade privada: ao controlar o corpo e a sexualidade da mulher, a mantendo dentro de casa, os homens conseguiam garantir a fidelidade matrimonial e a certeza de filhos legítimos para a sucessão de herança. A família monogâmica se constituiu juridicamente através do casamento, que não é primariamente uma união romântica, mas sim um arranjo econômico e social via contrato que garante a reprodução da força de trabalho para o capitalismo. A instituição do casamento foi fundamental para a acumulação primitiva do capital, juntamente com a família nuclear monogâmica – que foi tão bem sucedida como estrutura de controle que passou a ser responsável pela reprodução social e cultural dos trabalhadores, ficando o Estado isento dessa tarefa. Mas ao confinar afeto e cuidado a uma unidade familiar privada, o trabalho das mulheres se tornou invisível e sua exploração, contínua.

Na América Latina, a monogamia “pegou” por uma imposição colonial. Geni nunez, indígena guarani e pesquisadora, descreveu como os povos que viviam aqui tinham as mais diversas formas de se relacionar, a partir da sua pesquisa das cartas jesuíticas. O projeto de catequização foi essencial para propagar os ideais europeus cristãos e abolir qualquer forma relacional praticada pelos povos originários, com a justificativa de alcançar a civilização. Nunca nos tornamos tão civilizados assim, e a continuidade da monogamia segue garantida desde então, agora por uma poderosa ideologia: o amor romântico. A idealização do amor romântico mascara as relações de poder e posse implícitas na estrutura monogâmica, como o ciúmes, a dependência emocional, a dependência social, que culmina, quase sempre, no isolamento da mulher. Por isso, é justo dizer que a exclusividade monogâmica, sempre disfarçada de romantismo, acaba por dificultar a construção de laços sociais e solidários, desarticulando modos coletivos de vida e mantendo o foco no núcleo privado. E o espaço privado já se provou propício para abusos, traumas e situações de alto risco para mulheres e crianças, por ter sido constituído como espaço de controle.

Ao não olharmos para a estrutura monogâmica como um dos pilares da violência contra a mulher, acabamos ignorando uma parte importante das contradições e opressões que regem a experiência de ser mulher nesse mundo. Por um lado, vamos às ruas lutar por mais autonomia e direitos mas, por outro, achamos que é aceitável abrir mão de vínculos e prioridades anteriores em nome do amor. Por um lado, lutamos contra a violencia sexual que mulheres e crianças estão sujeitas mas, por outro, relativizamos fazer sexo sem vontade dentro do casamento. Lutamos pelo fim do machismo e da misoginia, mas dentro das relações afetivos-sexuais toleramos gritos,  punições e silenciamentos. Assim, estamos correndo o risco de ver o amor ser instrumentalizado como justificativa para violência, e nada pode ser menos revolucionário que isso. Como escreveu Alexandra Kollontai, o amor não é apenas um sentimento privado, mas uma força social poderosa que precisa ser transformada para que a revolução aconteça. Ela traz o conceito de “amor-camaradagem” como uma alternativa ao amor possessivo e burguês, onde podemos colocar fim à ideia de que uma pessoa “completa” a outra e valorizar a liberdade individual dentro de qualquer relação.

Questionar a natureza do sistema monogamico e a forma como nos relacionamos é tarefa feminista e ecossocialista,  fundamentada na crítica conjunta às estruturas hierárquicas, possessivas e excludentes herdadas do capitalismo e do patriarcado. Ter mais elementos para questionar a organização social vigente, a divisão de privilégios, de desigualdades e violências nos ajuda a, pelo menos, imaginar uma nova moral social e sexual que seja capaz de criar um mundo mais solidário e seguro para as mulheres. Uma nova moral onde o consentimento seja regra, onde o cuidado não seja exclusivo do espaço privado, onde nossos limites sejam respeitados; onde nossas vontades não sejam relativizadas, tampouco nossas vidas descartadas.


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