Os incels tomaram a pílula vermelha: uma reflexão sobre o crescimento dos redpills
Esse discurso funciona como uma espécie de falso empoderamento para homens que se colocam em posição de inferioridade. Em vez de questionar as próprias frustrações ou as dinâmicas sociais que produzem isolamento e insegurança, esses espaços oferecem uma resposta simples: culpar as mulheres.
Durante muito tempo, o termo incel era praticamente desconhecido no Brasil. A palavra circulava principalmente em fóruns da internet na América do Norte e na Europa e parecia algo distante da realidade brasileira. Apesar disso, o conceito existe desde o final dos anos 1990 e início dos anos 2000, quando começou a aparecer em blogs e comunidades online.
O termo incel vem da expressão inglesa involuntary celibate, que significa celibatário involuntário. Em teoria, a expressão se refere a homens que têm dificuldade em estabelecer relações amorosas ou sexuais. No entanto, os espaços digitais onde esse termo passou a circular foram se transformando ao longo do tempo.
Em 2020, fiz uma observação direta desses fóruns com o objetivo de entender quem eram esses homens e por que o discurso desses espaços era tão marcado pela misoginia. Para acessar algumas dessas comunidades, era necessário justificar o motivo da entrada.
A apresentação foi feita como um homem brasileiro que se identificava como um “celibatário involuntário”, identidade necessária para circular nesses ambientes.
O que apareceu nesses fóruns estava longe de ser apenas frustração afetiva. Tratava-se de comunidades formadas majoritariamente por homens com autoestima profundamente fragilizada, que muitas vezes se descreviam como subhumanos. Ao mesmo tempo, o ambiente era permeado por termos racistas, referências ao nazismo e um alto nível de desumanização das mulheres.
A raiva contra as mulheres aparecia de forma explícita. Elas eram responsabilizadas constantemente pelas frustrações desses homens. Eram chamadas de interesseiras, classificadas por notas de aparência e tratadas como objetos. Comentários racistas e até pedófilos surgiam com frequência nesses espaços.
Entre os vários tópicos discutidos nesses fóruns, um começou a ganhar cada vez mais destaque: redpill.
A referência vem do filme The Matrix, lançado em 1999. No enredo, o personagem principal precisa escolher entre tomar a pílula azul, que o mantém vivendo em uma ilusão confortável, ou a pílula vermelha, que revela a “verdade” sobre o mundo. Nas comunidades misóginas da internet, essa metáfora foi apropriada para sustentar a ideia de que os homens precisam “acordar” para uma suposta realidade em que estariam sendo enganados pelas mulheres e pelo feminismo.
Tomar a chamada “pílula vermelha”, nessa lógica, significaria enxergar essa “verdade”: a de que os homens seriam superiores e estariam perdendo espaço social por culpa das mulheres.
Esse discurso funciona como uma espécie de falso empoderamento para homens que se colocam em posição de inferioridade. Em vez de questionar as próprias frustrações ou as dinâmicas sociais que produzem isolamento e insegurança, esses espaços oferecem uma resposta simples: culpar as mulheres.
O movimento incel, em si, nunca teve tanto engajamento no Brasil como em outros países. Em muitos desses fóruns internacionais, inclusive, a presença de brasileiros sempre foi pequena. Ainda assim, parte dessa ideologia foi importada e adaptada: o discurso redpill.
Nos últimos anos, ele passou a ganhar espaço nas redes sociais brasileiras, impulsionado por influenciadores e coaches que vendem essas ideias como se fossem uma espécie de “filosofia masculina”. Muitos deles lucram explorando inseguranças e ressentimentos de jovens homens, transformando frustração em produto.
Mas por trás desse fenômeno existe algo maior.
Nas últimas décadas, as mulheres passaram a ocupar cada vez mais espaços na sociedade. Conquistaram maior autonomia econômica, ampliaram sua presença na vida pública e passaram a depender cada vez menos de relações tradicionais. Essas transformações abalaram estruturas de poder que, durante séculos, colocaram os homens em posição de privilégio.
Para alguns homens, essa mudança se traduz em uma crise de identidade masculina.
Em vez de lidar com essas transformações de forma madura, parte deles passa a acreditar em uma narrativa conspiratória: a de que existe um sistema manipulando a sociedade para favorecer as mulheres e prejudicar os homens.
É nesse cenário que as ideologias redpill ganham força.
Elas oferecem explicações simples para frustrações complexas. Dizem a esses homens que o problema não está nas relações sociais, nas pressões da masculinidade ou nas expectativas irreais criadas pelo próprio patriarcado. O problema, segundo essa narrativa, seriam as mulheres e o feminismo.
No fundo, o crescimento desses discursos revela algo bastante claro: sempre que mulheres avançam em direitos, autonomia e liberdade, o patriarcado reage.
A chamada “pílula vermelha” nada mais é do que uma tentativa de transformar ressentimento masculino em ideologia. Um discurso que se espalhou pela internet e pelas redes sociais, em ambientes com pouca regulação, e que já transborda do mundo virtual para a vida real, onde mulheres continuam sendo vítimas de violência e morte.