A batalha política pelo programa feminista
Entre o não, o sim e a consciência.
Desde o final do ano passado, se aprofundou o debate público sobre feminicídios, misoginia, movimento redpill e violência contra as mulheres no Brasil. O movimento Levante Mulheres Vivas (2025) colocou essa pauta nas ruas, para além das redes sociais e a quantidade massiva de notícias sobre feminicídios e violências grotescas contra as mulheres. A naturalização da violência e da morte é uma tática do fascimo de tirar a humanidade das nossas relações sociais. Nesse artigo, pretendo caracterizar o movimento feminista e seus desafios diante de um ataque direto ao seu próprio programa, feito pela extrema-direita por meio do movimento redpill.
O movimento feminista é um dos poucos movimentos que não perderam dinâmica de ruas mesmo com o crescimento das ideias fascistas no mundo, ocupando espaços de poder. A Marcha de Mulheres Negras (2025), O Levante Mulheres Vivas e a luta contra o PL 1904 (2024) são evidências disso. Assim como o feminismo, a extrema-direita se prova resiliente, tendo importantes laboratórios nos EUA, na Argentina, no Oriente Médio e no Brasil. Nesse contexto de ascensão das ideias fascistas, a “Carta de Porto Alegre” documenta a posição de organizações políticas que construíram a Conferência Internacional Antifascista e entendem a gravidade do lugar que o fascismo tem no mundo atualmente. Por isso, não é por acaso que exista um movimento articulado não só nas redes sociais, mas nas escolas e igrejas, que tem como objetivo derrotar o programa feminista. Essa derrota poderia se expressar, por exemplo, em mulheres cada vez mais amedrontadas, principalmente meninas que enfrentam violência nas escolas. Poderia também significar um receio dessa geração diante da palavra feminismo, seus significados e também a carga moral que se associa à palavra. Nesse sentido, o desafio do movimento feminista brasileiro hoje passa por um movimento duplo de se afirmar (retomando suas raízes programáticas e de luta) e de se tranformar (entendendo os novos desafios políticos da situação internacional e as novas roupagens nossos inimigos).
Palavras de ordem: para além da palavra escrita!
Afinal, o que é esse programa feminista? São as conquistas e conclusões políticas que acumulamos nas lutas pelos nossos direitos reprodutivos, contra a violência doméstica, pela legalização do aborto e principalmente a conciência de que mulheres podem dizer “não” a todas as formas de opressão. As trends masculinistas reagem literalmente ao possível “não” das mulheres e isso está longe de ser um acaso. Essa reação gramatical a nossa consciência de que “Não é não” revela um desejo antigo dos homens de dominar sem temer. Desejo esse que se cristalizou porque a cultura ocidental construiu as mulheres como figuras terríveis que devem ser temidas, como Eva e Pandora. É verdade também que a revolta contra o patriarcado é internacionalista, tendo exemplos recentes de movimento de ruas na Indonésia, na Índia, na Rússia e no Irã. Por outro lado, como em um movimento que se desenvolve em elipse, o movimento de mulheres passa por um novo nível de disputa. Por isso, vencer o movimento redpill hoje significa também desmentir um mito antigo que vem sendo contato sobre as mulheres e que atualmente é mais que necessário para justificar a crise profunda que o capitalismo enfrenta. Para isso, uma nova vanguarda precisa se formar nessa luta e esse movimento precisa ser mais consciente do que nunca. Juntas podemos arrancar vitorias, defender nossas vidas e organizar a solidariedade ativa.
Nesse sentido, é muito importante para a extrema-direita que as mulheres se sintam isoladas, que elas não conheçam seu direito de levantar a voz contra um agressor e que elas tenham medo de dizer “Não”. Se é verdade que os masculinistas “tomaram a pilula da conciência” em recusa aos avanços da primavera feminista, também é verdade que o nosso “Não” é um “Sim” para a possibilidade de um outro futuro feminista. Nosso não aos redpill é um sim para a oportunidade de fazer uma luta concreta que reformule mais uma vez feminismo, como fez o coletivo Juntas em suas recentes elaborações durante a Conferência Antifascista, na organização da campanha Na Minha Escola Redpill Não se Cria e no combate aos feminiscídios.
Essas palavras de ordem (Não é não, aqui redpill não se cria, entre outras) são sínteses de uma batalha por um programa de sociedade que representa uma maioria. Essa maioria foi por muito tempo chamada de os 99% no Manifesto Feminista escrito por Tithi Bhatthacarya, Nancy Fraser e Cinzia Arruzza. Em 2026, organizar essa maioria em lutas contra a violência machista a escala 6×1 e o enriquecimento dos bilionários é ainda mais importante que em anos anteriores. Por isso, nas redes sociais e nas escolas, está aberta uma disputa que só será vencida se falarmos com todas as letras como nos revoltam as notícias de violência que crescem nesses dois ambientes. O desafio do movimento feminista é apresentar essa alternativa mais uma vez, para uma nova geração, entendendo que o que mantém as ideias vivas é seguir em movimento.
Por isso, o desafio posto está na consciência de que nenhum direito das mulheres na história foi conquistado sem luta social. Em 2026, ser uma mulher consciente de tudo isso não é simples, pois estamos trabalhando jornadas exaustivas e enfrentando dados ainda maiores de violência. Os dados do primeiro trimestre deste ano refletem uma dura política de morte e desumanização das mulheres: foi o trimestre mais letal da história. Por outro lado, o discurso da pastora mostra que o peso da opressão está tornando nosso silêncio impossível, principalmente para mulheres trabalhadoras e da periferia, onde a agenda e o discurso da esquerda tradicional é muitas vezes abstrato e arrogante.
Por fim, a tarefa dada é organizar a luta. Desde espaços educativos de campanha sobre a violência em unidade com coletivos feministas, de juventude, até lutas de enfrentamento direto ao ódio, como fazem estudantes da UFPR, UFMG e UNESP nas últimas semanas. Além disso, construir a solidariedade internacional e afirmar o desprezo às guerras e ao genocídio do povo palestino. Afinal, é o mesmo sistema que mata mulheres no Brasil e na Palestina. Não menos importante é o desafio eleitoral de 2026 que pode combater o congresso inimigo do povo, eleger feministas que representam os trabalhadores e derrotar a extrema-direita nas ruas e nas urnas. Para isso, a consciência coletiva precisa ser uma prática que têm como horizonte uma realidade social radicalmente diferente do presente.